"Tenho olhos cansados de quem leu demais e o corpo marcado por amores demais.  Amar é eterno cerzir com o passado, mas esqueci-me de Ti. As mensagens estão nas linhas das mãos e é preciso decifrá-las. Mal posso esperar o amanhacer para ver-me, e descubrir que aquela saudades... sabia-se lá..mas não sentia-se aqui, não mais."



- Postado por: mouca tagarela às 21h54
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Varanda do meu quarto...calor...descubri que me enganaram....

(txt do inicio de um ano qualquer)


Uma fraude. Não era pra ser nada disso. Pelo menos, não foi isso que disseram quando venderam a imagem do Futuro pra mim!


Quando tudo era maior do que eu, inclusive a mesinha da sala, começaram as promessas.


Pra tudo que eu pedia, a resposta era sempre a mesma:
Amanhã. Eu criei minha própria imagem pra esse tal de Amanhã. Era uma coisa assim, meio parente do Papai Noel. A sua semelhança era reforçada pelo saco que eu imaginava que ele carregasse. No lugar dos presentes, trazia as coisas que as pessoas deixavam pro Amanhã.
E eu já achava que ele devia ser um sujeito muito rico,mesmo. Porque, se tinha coisa que eu via as pessoas fazendo muito, era deixar tudo pra depois. Logo soube que Depois era um primo próximo do Amanhã. E faziam parte de uma família enorme, todos descendentes do Futuro.

O Futuro, era tão desconhecido quanto imenso. Difícil era entender como o Futuro que começava daqui a um minuto, podia ser o mesmo que mora no Amanhã, no Depois e nas cartas de Tarot que não têm data. Uma vez, no meio de uma brincadeira, fiz um corte na palma da mão. Fiquei meio boba na hora, por causa do susto. Mas, a apreensão de verdade veio depois. A cicatriz, um pequeno furo, se estabelecera bem no lugar onde está o que eles chamam de Linha do Destino. Assim, daquele dia em diante, eu tinha um furo no Futuro. E isso era preocupante. Fui obrigada a buscar informações sobre o Futuro. E não faltaram detalhes.

Pra começar, no Futuro, tudo era prateado. Dos cachorros às roupas, tudo reluzia. Engraçado como as coisas começaram em preto e branco, partiram pro tecnocolor, pra terminar em cintilante. As casas não eram pregadas ao chão. Elas flutuavam, assim como os carros. Que não eram carros, mas naves. E também não havia comida, mas pílulas. E foram extintas as classes sociais, porque não existia o dinheiro e os seres humanos eram servidos por robôs.

Também não existiam portas, mas paredes deslizantes, que obedeciam a um comando cerebral. Só que as portas não faziam falta. Porque não existiam ladrões, já que todo mundo podia ter tudo. E não havia tristeza, porque não havia amor, tampouco sexo. Dessa maneira, ninguém se desiludia ou decepcionava e podia viver eternamente feliz. A continuidade da espécie era assegurada por laboratórios, que reproduziam seres humanos perfeitos e assépticos.

A morte, ninguém temia. Era apenas uma opção de desligamento voluntário. O off deste mundo perfeito que o Futuro guardava pra nós. Tudo isso estava nos livros, nos filmes e na ilusão das pessoas que eu conheci. Estamos num ano qualquer depois do ano 2001 e não houve nenhuma odisséia. Nem na Terra nem no Espaço. Não somos controlados por um só computador, como no filme, mas nos comunicamos através de milhares deles. Que, quando não quebram, nos permitem compartilhar impressões sobre o presente e bendizer o passado. Do Futuro, a gente nem fala muito. Nossos pés precisam ficar bem presos ao chão, assim como nossas casas, que às vezes caem, devido à falta de caráter de um tipo de gente que continua nascendo e nossos laboratórios não podem eliminar.

Nossa comida não dá pra todos. Nossas paredes não impedem que o Mal possa entrar. E o dinheiro... Bem, o dinheiro às vezes pinta. Ou não. Mas, a gente não desiste. A tristeza vem, mas passa. A dor dói, mas acaba. E o corpo bem que gosta da maneira mais antiga de se relacionar, deixando as roupas (coloridas) espalhadas pelo chão.

O furo no meu Futuro não tem mais importância. Descobri que a Linha do destino fica do outro lado. O complicado da vida, deixo pra depois. Pra pensar Amanhã. Se ele chegar.



- Postado por: mouca tagarela às 21h39
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